Tem um Pikachu na sala de aula. E agora?

Tem um Pikachu na sala de aula. E agora?
Pokémon Go: ameaça ou oportunidade para as escolas?

Agora não tem mais jeito: no dia 3 de agosto, o Pokémon Go foi oficialmente lançado no Brasil e logo terá milhões de aficionados prontos para capturar Pokémon em todos os lugares, conforme já acontece em outras partes do mundo. Inevitavelmente, nossos alunos embarcarão nessa onda. Para nós, educadores, o game mais esperado dos últimos tempos poderá representar um novo catalisador de indisciplina e distração para os estudantes ou se tornar um poderoso recurso para estimular a aprendizagem. Dependerá de como tratarmos a questão.

 

Entendendo o jogo

Primeiro, vamos entender porque esse jogo tão amado pelos jovens é diferente dos demais.

Pokémon é a forma reduzida para Pocket Monsters, personagens criados pela empresa japonesa Nintendo nos anos 1990. O Pokémon Go é um jogo para celulares Android e iPhone desenvolvido pela empresa Niantic que utiliza esses mesmos personagens.  Integrado a um sistema de mapas e de localização, o game recorre à técnica de realidade aumentada para inserir os Pokémon nas imagens vistas através da câmera do smartphone, tal como na foto que ilustra este artigo.

O primeiro objetivo do jogo é localizar e capturar os Pokémon que estão espalhados pelo mundo – quanto mais monstrinhos o jogador capturar, melhor. Como os Pokémon podem estar em qualquer lugar, em ambientes abertos ou fechados, para encontrar um Pokémon é necessário se deslocar pela cidade olhando pela tela do jogo.

Para se tornar um Mestre Pokémon os jogadores, juntos com seus Pokémon, precisam ganhar disputas contra outros jogadores para controlar o maior número possível de espaços que são chamados de ginásios, normalmente situados em praças ou parques reais da cidade. Para que as disputas aconteçam, é necessário que o jogador se desloque até esses ginásios.

Atualmente, existem mais de setecentas espécies diferentes de Pokémon, com nome e características próprias. Alguns são encontrados facilmente, até mesmo dentro da nossa casa, mas para capturar os mais raros pode ser necessário utilizar técnicas e ferramentas especiais (que podem não ser gratuitas). Temos assistido a cenas surreais de centenas de pessoas correndo para a provável localização de Pokémon raros.

No jogo também existem os Pokéstops que são localidades do mundo real, tais como estabelecimentos comerciais, museus e atrações públicas, onde é possível obter Pokéballs virtuais, um recurso necessário para capturar Pokémon.

 

A educação diante do fenômeno Pokémon Go

Vamos combinar que são inegáveis diversos benefícios advindos do uso dos games. Os jogos digitais podem despertar a curiosidade dos alunos, aguçar a coordenação motora, aprimorar o reconhecimento de padrões e fortalecer atitudes e habilidades, tais como resolução de problemas, resiliência e trabalho cooperativo, além de proporcionar a metacognição, que é a capacidade de refletir sobre o próprio pensamento no sentido de organizar, revisar e modificar processos e estratégias em função dos resultados obtidos.

Pokémon Go é o primeiro jogo do mercado que utiliza realidade aumentada a se tornar popular – aliás, muito popular. Diferentemente da grande maioria dos games e redes sociais que está por aí, ele não cria uma situação de afastamento e isolamento social. Pelo contrário, obriga que os jogadores saiam de casa e caminhem, incentivando-os ao contato real com outros jogadores.

Na verdade, grande parte o sucesso do Pokémon Go se deve, justamente, por ter conseguido misturar o mundo real com o virtual de forma tão simples. Até então, em quase todos os jogos disponíveis no mercado a dinâmica consistia em mover um avatar virtual em um mundo virtual delineado por um mapa virtual. Em Pokémon Go é diferente: o jogador está localizado dentro do jogo via GPS, em tempo real.

Não obstante as preocupações com segurança e privacidade, a popularidade do Pokémon Go é um fenômeno cultural e tudo indica que deve ser abraçado pelos educadores, pois a fixação dos alunos pelo jogo costuma ser imediata e inevitável. Assim, tirar proveito dessa situação e criar condições para incentivar o aprendizado é o que de melhor podemos fazer. Encarando o jogo como um recurso interdisciplinar encontraremos inúmeras possibilidades de trabalho, com destaque para as habilidades de mapeamento, estudos sociais, história local, matemática e redação.

Se você é um educador ligado em tecnologias, eis mais um recurso com potencial educativo a ser explorado.  Por outro lado, se você é um educador sem muita familiaridade com tecnologias, se não se vê baixando e instalando o Pokémon Go no seu celular, não se preocupe, pois ainda assim você poderá usar o Pokémon a seu favor e propiciar atividades educativas originais e interessantes, bastando saber conduzir seus alunos para os objetivos desejados.

 

Alguns exemplos de atividades:

  1. Sem sequer utilizar o aplicativo do Pokémon Go, é possível empregar a lógica do jogo para criar atividades educativas. Por exemplo, podemos selecionar um tema, tal como animais, planetas e astros ou países e pedir aos alunos para que criem uma enciclopédia com figuras capturadas na internet, tal como no Pokédex do game. Ainda inspirado no jogo, podemos ampliar essa atividade promovendo batalhas de conhecimentos que podem ser realizadas entre os alunos.
  2. Na área de alfabetização, leitura e escrita, podemos pedir aos alunos para salvar a imagem da tela dos smartphones no momento em que capturarem um monstrinho e criar uma história utilizando a sequência de imagens obtidas. Depois, os alunos podem compartilhar as histórias com os colegas, apresentando-as para a turma. Logicamente, para obter melhores resultados os alunos precisarão ter acesso a ferramentas para planejar, preparar e produzir as suas histórias.
  3. Em relação a estudos sociais e história local, como muitos Pokéstops estão localizados em museus, prédios históricos e atrações turísticas, realizar expedições a essas localidades criará uma oportunidade para gerar muitas conversas e relatos interessantes, além de permitir aos estudantes avançarem mais no jogo, é claro.
  4. Com ou sem expedição, uma forma de expandir a atividade do item 3 é pedir para os alunos criarem e postarem fotos em 360º dos locais históricos ou turísticos visitados por eles, descrevendo o que aprenderam sobre o local. O Google Street View é uma boa opção para gerar esse tipo de foto usando apenas o celular.
  5. Quer ampliar ainda mais a atividade com fotos em 360º? Dê uma olhada no Google Cardboard. Através desse recurso é possível ter uma experiência imersiva a partir da foto gerada. Os alunos irão adorar.
  6. Quanto à matemática, o Pokémon Go tem um jornal, uma espécie de agenda, onde automaticamente são registradas a data e a hora de captura dos Pokémon e de coleta de Pokéballs. A partir dessas informações podemos introduzir atividades para familiarizar os alunos com manipulação, análise e apresentação de dados, utilizando princípios de estatística, planilhas, gráficos clássicos e infográficos.
  7. Por causa da integração do game com o Google Maps, a possibilidade de trabalhar conhecimentos básicos em relação a mapas, direções cardeais, distâncias e navegação também é muito forte.
  8. Na área de Ciências também encontramos utilidade para o jogo desde que as espécies de Pokémon estão relacionadas a habitats específicos. Isso mesmo, têm monstrinhos que vivem em áreas molhadas, outros em desertos, etc. Esse pode ser um bom caminho para explorar as características dos diversos habitats de forma atraente para os alunos.

Bem, esses são apenas alguns exemplos de atividades, mas as possibilidades de trabalho são muito amplas. Se você tiver outras ideias de atividades usando o Pokémon Go e desejar compartilhar conosco poderá ajudar a inovar as práticas na sala de aula. Escreva pra gente.

 

O Pikachu

A propósito, quanto ao Pikachu ilustrado e referenciado no título deste artigo, ele é o monstrinho número 25, pertencente à primeira geração de Pokémon, do tipo elétrico, tem 40 cm de altura e pesa 6 kg. Suas bochechas são bolsas de armazenamento de energia elétrica que são carregadas durante a noite, enquanto dorme. Entendeu como é?

Mas, afinal, e se aparecer um Pikachu na sala de aula? O que fazer? Bem, o professor é o maestro, o regente da aula e da turma. Cabe a ele estabelecer um contrato tácito de convivência com os alunos desde os primeiros dias de aula. Uma vez que as regras de conduta estejam claras e niveladas com todos, basta segui-las. De certo, é que Pokémon Go só deve ser jogado na escola quando e se permitido. Agora, entre proibir celulares ligados durante a aula a se atirar ao chão para capturar o Pikachu antes que os alunos, certamente há algumas opções menos radicais.

 

Precauções

Apesar de todas as oportunidades que o Pokémon Go pode proporcionar no meio educacional, precisamos ficar atentos porque o jogo talvez não surta o mesmo apelo magnético em todos os alunos, podendo até ser desinteressante para alguns. Cabe aos educadores monitorar, identificar e criar estratégias de apoio ou mesmo diferenciadas para esses casos.

Outro ponto é que devemos ficar atentos a alguns alertas de segurança: o Pokémon Go compartilha informações de localização entre os jogadores, já havendo relatos de uso indevido de dados pessoais e de ladrões que usaram o game para atrair vítimas a lugares desertos para assaltá-las. Portanto, além de orientar nossos filhos e alunos sobre os cuidados com lugares isolados e contato com pessoas desconhecidas, é bom monitorar por onde andam nossos jogadores, pois eles podem sair por aí a esmo, ensandecidos, para capturar Pokémon.

Também existe certa cautela quanto ao marketing por trás do produto, uma vez que a Nintendo deverá, em breve, permitir que as empresas adquiram ou patrocinem Pokéstops como forma de aumentar o fluxo de pessoas para seus estabelecimentos.

 

 

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